Prestes, Luiz Carlos

Prestes, Luiz Carlos

Porto Alegre, 1898 - Rio de Janeiro (Brasil), 1990

Lendário comandante da marcha que atravessou o Brasil de 1924 a 1927 – e que entraria para a história com o nome de Coluna Prestes –, tornou-se mundialmente conhecido como o Cavaleiro da Esperança. Perseguido pela ditadura do Estado Novo (1937-1945), de Getúlio Vargas, e pela ditadura militar (1964-1989), Luiz Carlos Prestes foi secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e seu principal líder por quase meio século.

Gaúcho de Porto Alegre, nascido em 3 de janeiro de 1898, era filho do capitão de engenharia do Exército, Antonio Pereira Prestes, e da professora Leocádia Felizardo Prestes. Aos cinco anos, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro. Estudava numa escola primária no bairro de Botafogo quando morreu seu pai, em 1908. Em 1916, aos dezoito anos, ingressou na Escola Militar de Realengo, no Rio de Janeiro, onde se formou em engenharia.

A Coluna

Em 1922, dois anos após ter iniciado a carreira militar, Prestes participou da preparação da primeira revolta dos tenentes por reformas políticas e sociais, o que lhe rendeu, como punição, a transferência para o Rio Grande do Sul. Em 1924, eclodiu em São Paulo um novo movimento tenentista, logo controlado pelas tropas do governo. Em outubro do mesmo ano, Prestes, já capitão, liderou um grupo de rebeldes na região missioneira de Santo Ângelo (RS), em apoio aos paulistas. Afastou-se do Exército e, com seus antigos comandados do Batalhão Ferroviário, partiu do Rio Grande do Sul com o objetivo de juntar-se às forças paulistas lideradas por Miguel Costa (1885-1959) em Foz do Iguaçu. Nascia então o contingente rebelde que formou a Coluna Miguel Costa-Prestes, que ficaria conhecido historicamente apenas como Coluna Prestes .

Foi para mostrar o quadro de miséria e de atraso em que se encontrava a população e chamar a atenção para a necessidade de uma mudança radical no país que os revoltosos marcharam por treze estados, entre 27 de dezembro de 1924 e 3 de fevereiro de 1927, vencendo todos os combates travados. A Coluna pretendia enfraquecer política e militarmente o presidente Artur Bernardes (1875-1955) – que por causa da movimentação dos tenentes governou sob estado de sítio até o final de seu mandato –­ e denunciar as injustiças da chamada República Velha (1889-1930). Percorreram, a cavalo ou a pé, cerca de 25 mil quilômetros do território brasileiro. Em 1927, acuado, com pouco mais de 600 homens e praticamente sem armas, o comando da Coluna decidiu partir para o exílio. Terminava assim a mais longa marcha de uma milícia revolucionária, invicta após inúmeros confrontos com forças militares superiores, e surgia a lenda do Cavaleiro da Esperança.

Da coluna ao comunismo

Em 3 de fevereiro de 1927, entre 400 e 500 remanescentes da Coluna partiram para a Bolívia. Prestes fixou-se na cidade de La Guaíba. Em dezembro do mesmo ano, o Partido Comunista do Brasil (PCB), impressionado com a repercussão da marcha, enviou seu secretário-geral, Astrojildo Pereira (1890-1965) – escritor e um dos fundadores do partido, em 1922 –, ao encontro de Prestes. Astrojildo viajou disfarçado de enviado especial do jornal A Esquerda e deveria trazer uma entrevista com o líder do movimento, a ser publicada com exclusividade pelo jornal. Em sua bagagem, doze livros. Entre os autores, Marx, Engels e Lenin – por quem Prestes iniciou suas leituras, com O Estado e a revolução. Começava, assim, a formar sua visão socialista.

De La Guaíba, os ex-combatentes esperaram durante todo o governo de Washington Luís (1869-1957) pela anistia, que nunca veio. Aos poucos, alguns foram retornando clandestinamente ao Brasil. Prestes, em abril de 1928, seguiu para a Argentina, onde aprofundou sua relação com o marxismo e tornou-se amigo dos comunistas Rodolfo Ghioldi (1897-1985) e Abraham Guralski (1890-1960), este último dirigente do birô latino-americano da Internacional Comunista (IC).

Rompimento com o tenentismo

Em 1930, Luiz Carlos Prestes viajou clandestinamente para Porto Alegre, onde teve dois encontros com Getúlio Vargas, então presidente do Estado do Rio Grande do Sul. Vargas queria o apoio de Prestes à sua candidatura a presidente pela Aliança Liberal, empreitada em que não logrou êxito. Em nova tentativa de aproximação, meses depois, Getúlio ofereceu a Prestes o comando militar da revolução com que pretendia tomar o poder. Ele mais uma vez recusou, entre outros motivos, por não confiar nos líderes daquele movimento, que, na verdade, pretendiam impedir a posse de Júlio Prestes (1882-1946), presidente eleito em 1º de março daquele ano.

O comandante justificou-se com seus ex-companheiros – cuja maioria já tinha se comprometido a apoiar Getúlio Vargas – dizendo que este representava os interesses de outros setores da oligarquia e não se tratava de “um simples problema de troca de homens”. Às vésperas do movimento armado de 1930, Prestes tornou público seu famoso Manifesto de Maio, inspirado em documentos do PCB, no qual rompia definitivamente com os tenentes e apresentava uma proposta de revolução de caráter democrático, antilatifundiário e anti-imperialista. Getúlio tomaria o poder em outubro.

Com dificuldades para trabalhar na Argentina, o Cavaleiro da Esperança mudou-se para Montevidéu, Uruguai, em 1931 e, em novembro, a Internacional Comunista convidou-o para ir a Moscou, com a família , trabalhar como engenheiro e dedicar-se aos estudos do marxismo-leninismo. Em agosto de 1934, por pressão do PC soviético, Prestes – nessa época, visto com reserva pelos comunistas brasileiros, desconfiados com o que consideravam uma guinada à esquerda tipicamente pequeno-burguesa – foi aceito nos quadros do PCB. Ainda em 1934 elegeu-se membro da comissão executiva da Internacional Comunista (ou Comintern) integrada por nomes como Stalin e Mao Tsé-tung –, e voltou clandestinamente ao Brasil. Com a comunista alemã Olga Benário (1908-1942), que se tornaria sua companheira, tinha a missão de impulsionar a revolução socialista no Brasil.

O levante de 1935

A longa viagem de volta teve início em dezembro de 1934 e, por razões de segurança, seu roteiro incluía a Europa e os Estados Unidos. Com os codinomes de Antônio e Maria Vilar, de cidadania portuguesa, Prestes e Olga fizeram-se passar por um casal em lua de mel e, sem despertar suspeita, desembarcaram no Brasil em abril de 1935 para se juntar a um grupo internacional de comunistas no Rio de Janeiro. No mesmo ano, foi fundada a Aliança Nacional Libertadora (ANL), formada por ex-tenentes reformistas, comunistas, socialistas e líderes sindicais, da qual Prestes foi designado presidente de honra. A ANL, cujo lema era “pão, terra e liberdade”, organizou uma insurreição – conhecida na história oficial como Intentona Comunista – deflagrada em 23 de novembro de 1935, na cidade de Natal, onde os revolucionários chegaram a constituir uma junta governativa que permaneceu no poder por apenas quatro dias. O movimento eclodiu em Recife e Olinda no dia seguinte e, no Rio de Janeiro, somente em 27 de novembro, sendo os combatentes intensamente bombardeados até a rendição final. Prestes havia estimulado a postura esquerdista do PC local, que deflagrou a insurreição que se transformaria na última quartelada tenentista.

Getúlio Vargas, por intermédio de seu chefe de polícia Felinto Muller – expulso anos antes da Coluna Prestes –, desencadeou uma implacável caçada policial para prender Prestes e Olga; o que aconteceu em março de 1936, no bairro carioca do Méier. Olga foi deportada e entregue à Gestapo – polícia secreta da Alemanha nazista –, grávida de sete meses. Sua filha, Anita Leocádia, nascida em 27 de novembro na prisão alemã, foi entregue dois anos depois à mãe de Prestes – dona Leocádia –, que havia empreendido uma campanha de repercussão internacional para libertar a neta, com quem passou a viver no México. Olga foi executada no campo de concentração de Bernburg, em 1942. Prestes permaneceu encarcerado durante nove anos, apesar dos esforços de seu advogado, Sobral Pinto (1893-1991), e de inúmeros atos e manifestações em sua solidariedade.

Os anos de legalidade

Em 1945, terminada a Segunda Guerra Mundial, o nazifascismo havia sido derrotado na Europa e a redemocratização se anunciava. Prestes foi libertado com a anistia decretada por Getúlio Vargas e, somente então, conheceu a filha, que já tinha nove anos. No mesmo ano, foi homenageado em um comício histórico do PCB, em São Paulo: no estádio do Pacaembu lotado, os manifestantes exibiam retratos de Prestes entre bandeiras vermelhas.

Cassado desde 1928, o PCB voltava à cena política, abrindo-se para o período áureo de sua história. De cerca de 2 mil militantes no final dos anos 1920, o partido passava a contar com 200 mil filiados. Mesmo com pouco tempo para a campanha, Iedo Fiúza (1894-1975), lançado pelo partido para concorrer à presidência da República em 1945, obteve expressivos 10% dos votos válidos. Getúlio Vargas, pressionado pela direita, patrocinava o movimento constituinte que era apoiado pelos comunistas. Tal fato surpreendeu a todos e, ainda hoje, há quem questione a atitude de Prestes em defender a permanência no poder do mesmo Vargas que entregara sua mulher aos nazistas. Era a posição do partido, acima de seu drama pessoal.

Secretário-geral do PCB desde a Con­ferência da Mantiqueira realizada em 1943 – quando ainda estava na prisão –, Prestes elegeu-se ao senado pelo Distrito Fede­ral – à época, Rio de Janeiro – e deputado por três estados em dezembro de 1945, tendo sido o candidato mais votado, com 157 mil votos. Foi constituinte durante o governo de Eurico Gaspar Dutra (1883-1974), quando assinou a Constituição de 18 de setembro de 1946. O partido elegeu ainda catorze deputados federais – entre eles, Carlos Marighela, Gregório­ Bezerra (1900-1983), Jorge Amado. A crescente popularidade rendeu-lhe também bons resultados nas eleições de 1947 para deputados estaduais e vereadores, formando a maior bancada do Distrito Federal e elegendo seu presidente. Tiveram,­ entretanto, pouco tempo para subir à tribuna.

Em maio de 1947, na onda repressiva da “guerra fria”, o PCB teve seu registro suspenso, caindo novamente na ilegalidade. Prestes também voltou à clandestinidade e nessa época conheceu Maria, filha de um antigo comunista, então designada para cuidar do dirigente. Com ela, Prestes teve nove filhos, alguns deles nascidos em aparelhos do partido.

Dos anos 1930 aos anos 1960, cresceu a influência dos comunistas entre os intelectuais brasileiros. Nesse período, fizeram parte das fileiras do Partidão – como ficaria conhecido – escritores como Graciliano Ramos, Monteiro Lobato, Pagu, Carlos Drummond de Andrade, Aparício Torelly, o Barão de Itararé (1895-1971). E também o pintor Candido Portinari, o historiador Caio Prado Jr., o arquiteto Oscar Niemeyer e muitos outros. No movimento sindical, o PCB disputava a liderança com o PTB de Getúlio. Nessa disputa, os comunistas mudaram várias vezes de política, do “apertar os cintos”, passando pelo sindicalismo vermelho estimulado pelo sectário Manifesto de Agosto de 1950, até a linha adotada na  famosa greve dos 300 mil – que parou São Paulo durante um mês, em 1953 – e a campanha nacionalista “O petróleo é nosso”, que resultou na criação da Petrobras.

Dissidências no PCB

Após o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), de 1956, no qual Nikita Krushev denunciou os crimes de Stalin, o Partido Comunista do Brasil fez o seu V Congresso, em 1960, no qual se inclinou a uma renovação de tipo krushevista e também a uma estratégia de desenvolvimentismo nacional e transição pacífica ao socialismo. O comitê central então decidiu, entre outras questões, adotar o nome de Partido Comunista Brasileiro, mantendo a sigla PCB. A justificativa era a afirmação de que se tratava de um partido brasileiro e não de uma seção da Internacional. Um grupo, cujos expoentes eram João Amazonas (1912-2002), Maurício Grabois (1912-1973) e Pedro Pomar (1913-1976), se opôs a essa orientação e à mudança no nome e rompeu com o partido para, em 1962, fundar o atual PCdoB, adotando a denominação original de Partido Comunista do Brasil.

Em 1967, crescem no PCB as divergências entre os que acreditavam que a derrota da ditadura militar só se daria pela força e os que pregavam a resistência política por meio da luta de massas e de uma frente antiditatorial. Em setembro, seguindo no processo do VI Congresso, o comitê central – que tinha Prestes à frente – expulsou vários membros de direção, entre eles Carlos Marighela, Joaquim Câmara Ferreira (1913-1970), Jacob Gorender (1923), Mário Alves (1923-1970) e Apolônio de Carvalho (1912-2005). Nasciam assim o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) e o Agrupamento Comunista de São Paulo, que em 1969 passaria a se chamar Ação Libertadora Nacional (ALN).

Os últimos combates

Com o golpe militar de 1964, Prestes voltou à clandestinidade. Foi retirado do país pelo PCB, para novo exílio na União Soviética, de onde retornaria em 1979, no processo de abertura política desencadeado pela anistia. O Cavaleiro da Esperança, então com 81 anos, foi recebido no aeroporto do Galeão por cerca de 10 mil manifestantes, numa estrondosa festa popular. Reestruturando-se em todo o país, o PCB realizou em dezembro de 1982 o seu VII Congresso, que formulou uma linha política que atualizava o seu projeto de tornar-se um partido nacional de massas. Vinculava o objetivo socialista a uma democracia a ser construí­da com base no respeito ao pluralismo e nos valores fundamentais da liberdade.

Na preparação desse Congresso, o PCB enfrentou novas lutas internas, de graves consequências. Prestes divulgou um documento, a Carta aos Comunistas, no qual expôs suas divergências com a orientação do comitê central – acirradas desde o exílio. Destituído da secretaria-geral, rompeu com o partido. Em 1989, apoiou Leonel Brizola na campanha presidencial em que os comunistas possuíam candidato próprio, o que levou o dirigente da famosa Coluna a ser aclamado presidente de honra do PDT. No segundo turno, subiu no palanque eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva. Mas, mesmo afastado do PCB desde 1983, ele continuava a demonstrar orgulho em se definir como comunista, causa pela qual lutou por quase 70 anos e da qual foi a figura brasileira mais destacada.

Luiz Carlos Prestes faleceu no Rio de Janeiro, em 7 de março de 1990, aos 92 anos. Seu enterro se transformou num grande ato de luto e de dor, expresso por uma multidão de amigos e admiradores, vindos de todos os cantos do Brasil e do exterior. Morria um grande brasileiro, um grande comunista, que dedicou a vida ao sonho revolucionário que marcou o século.